27.1.10
O Desconhecido
Trajado numa obsessão patalógica, ele rendia-se aos anseios de sua alma sedenta por um corpo temerário à própria sexualidade. Ele espionava diariamente os passos ágeis daquela face cujos traços conotavam uma indefesa criança. Excitava-se com a ideia. Aquela fisionomia transparecia erotismo, além de toda sua suavidade natural. Lábios desenhados numa pornografia irresistível, olhos tingidos num quase esporro artificial. Sua coloração esmeralda destacada com os borrões vermelhos mistos em negro. Roupas negras e rebeldes, tão surradas quanto suas solas de sapato. Era a vítima perfeita. Jazia a presa sob seus encantos. Não hesitou em copiar os passos do outro, até encurrala-lo num beco qualquer. A navalha inibia o jovem, e os olhos cobiçosos do moreno o analisavam em minucia. Aquele cheiro adocicado entranhava nas narinas, aguçando ainda mais sua libido. Naquele momento, obteve poder para que ordenasse o outro. Os olhos rabiscados tornaram-se analíticos, os lábios em seu traço despudorado vergavam-se nos sorrisos mais gentis, mesmo que suas pupilas dilatadas de temor pudessem o contradizer. Ele queria tanto quanto seu desconhecido moreno de olhos penetrantes. Depois de joguinhos sedutores, estavam sobrepostos por um colchão luxuoso num Motel próximo à esquina da abordagem. O moreno lambuzava-se com o corpo definido que corcoveava por baixo de si. Sentia-se enrijar. Não controlava-se com a submissão e ferocidade daquele que agora oferecia-lhe os punhos para que fossem torturados pelas correias de couro. Estava impotente frente ao seu domador. Indecência invejável. A nudez fez-se a beleza de ambos, e os corpos encaixavam-se emudecidos pelos murmúrios secretos de suas vistas embebidas. As pernas torneadas suspensas pelo ar, auxiliadas por correntes embutidas pelo teto. Promiscuidade fantástica. Aquele anelzinho clamava pela língua levemente áspera do homem, e assim lhe fora concedido. Tão quente e confortável que não mais definia-lhe como áspera, porém havera de ser substituida por uma maciez monstruosa. Compelia-se e berrava obscenidades. Desejava o corpo do moreno preso ao seu. Enquanto seus devaneios alcançavam um estágio de erupção vulcânica, sentiu suas veias dilatarem dando espaço para aquela grossura que respingava-se num líquido relaxante e quase imperceptível. Uma dureza grotesca, uma quentura e umidade deliciosas. Queria acavalar-se por aquela solidez, embora ainda estivesse anestesiado pelo sofrimento agudo que estendia-se por suas virilhas e extensões. Nada excedia tamanho prazer. Absolutamente nada silenciaria suas urrantes súplicas. Pressentira o prazer pela submissão. Pressentira o prelúdio do desconhecido: do mascarado invisível que rondava seus pesadelos. Apaixonara-se pelo psicopata diurno; pelo fetichista noturno.