15.1.10

O Pianista

Era um pianista fabuloso, compunha os arranjos mais diabólicos e eróticos aos ouvidos das moças que residiam na França. Aquelas mãos calejadas de juntas grossas eram quistas pelas jovens que esbanjavam virginalidade naquela época repressora. Seu par de olhos verde-oliva enfeitiçavam quaisquer que fossem as donzelas que lhes apresentasse. Olhos vagos, friamente misteriosos. Ali jazia um poço de pornografia, algo desconhecido nos tempos aos quais encontravam-se. Lábios finos e empalidecidos numa quase tonalidade fúnebre. Cabelos negros feito a plumagem dum corvo açoito, esvoaçantes e desgrenhados costumeiramente. Ele parecia caçar sua presa enquanto seus dedos trabalhavam pelas teclas frias do imenso e caprichoso piano. Ele tinha o fascínio de um jovem aprendiz, tal que lhe cercava com os olhos de modo penetrante. Sentia seus pulmões petrificarem em cada troca de olhar. Que sinfonia seria aquela tão estarrecedoramente hipnótica? O homem era um ícone do pecado. Sedutor e arrojado. Quanto atrevimento naqueles dedos tão ávidos que cegamente desencadeavam a melodia que impregnava nos poros do jovem ouvinte. Sentia-se excitado com a indulgência de tal mestre. Negou sua sexualidade. Vendou seus anseios profanos. Rendeu-se ao homem que lhe seduzia pelos tímpanos. Feroz audácia, mordaz instinto. Deixou-se por acompanhar os passos solenes do músico até que as cortinas em seu asqueroso perfume de gardênia pudessem resguardar o prazer de todos os olhos críticos. Detrás do manto bordo não mais diferia-se a classe, buscavam o mesmo impacto. Amantes da madrugada. O jovem gloriava-se ao exibir suas belas formas agora desnudas, tão vistosas que ensopavam os beiços deleitosos do mestre. Insinou-se e ofereceu-lhe o corpo como uma oferenda. Ambos copulavam mentalmente a grandiosa descoberta. As mãos ásperas que tinham uma intimidade invejável com as teclas rústicas, agora dedilhavam pelo corpo de pêlos claros. Desejava tortura. Submissão. O jovem corpo tinha-se debruçado pelo impecável e lustroso piano, enquanto o pianista lhe surrava as polpas virgens com um relho desgastado. Balbuciava com os urros desgostosos de seu próximo. Tornou-se escravo nas mãos elegantes. Sentia a fervura emanar por todo corpo. Queria enlouquecer naquelas mãos falecidas na perversão. Brutal. Severo. Apaixonante. Aquele smoking parecia perfurar-lhe as artérias, queria ver-se livre do traje que encobria tamanha virilidade. Teve-se livre pelas mãos gentis de seu parceiro. Suas veias inflamavam, seu corpo bradava por êxtase. Atracaram-se pelos corpos. Dançaram furtivamente. Inundavam-se de suor. Melavam-se pelos dedos em busca de um ângulo certeiro rumo à agonia. O jovem sibiliava o quão roliço e molhado o pianista era, censurava-lhe pela rispidez, embora gargalhando durante seus atos pecaminosos. Tinha-se entorpecido. Seus corpos eram máquinas corruptas e insaciáveis. Os dedos pequenos do jovem chiavam pela superfície envernizada tatuando suas impressões digitais de modo selvagem. Insultaram seu fiel Deus. Demoliram seu pragmatismo, assim pernoitando enredados num alvoroço melódico.

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