29.1.10

O Soldado Apocalíptico

Vendou o menor com uma tira esfarrapada de tonalidade negra, podendo cegar seu afoito monstrinho das façanhas que aguardariam-o. O moreno era devoto dos acessórios que tolhiam seu escravo sexual. Adornou seu parceiro com uma coleira de couro sintético, encorpando-o num visual vulgar que preenchia-lhe os olhos em deleite. Seu punho pesado ajustava a corrente até que o pequeno desnudo estivesse seguindo os passos de seu ordenante. Sua estrutura composta em desenhos artificiais enquadravam-o à uma obra prima. As solas de seu par de coturnos surrados estrepitavam pelo solo, suntuosos e ordinários. Embora seus olhos estivessem cegos, seus ouvidos apuravam-se a cada instantes, na busca incessante pela descoberta. Ouvira-se somente ruídos de cadeados. Por conseguinte, houvera um grande baque de celas. Percebera as intenções do moreno. Logo mais, foi lançado brutalmente ao cárcere improvisado. O chão obtinha um odor de urina, tão gelado quanto seus dedos. O temor e a excitação nunca estiveram tão interligados quanto neste momento. As risadas gloriosas do outro penetravam-lhe os tímpanos de modo que sabia que sofreria nas mãos daquele amante apaixonado. O homem achegara-se pelo cárcere, repuxando o menor pela nuca num ato rigoroso. O pequeno sabia quais eram as intenções do aprendiz de soldado. Estocou-lhe a face pela carreira gradeada, estufando-se e esfregando-lhe a glande melada pelos lábios. Afogara-se com o próprio ar, porém sem queixas abocanhou o soldado, abrigando-lhe toda rigidez pela estreita cavidade bucal. O moreno esguichava nos lábios lisos e bem desenhados do menor, inundando-lhe o paladar com sua secreção pérfida. Sentia fome. Queria presenciar a dor do próximo. Adentrou a cela e surrou-lhe a face tão clara e juvenil, marcou-lhe as bochechas num vermelho-arroxeado. Fizera o rapaz ajoelhar-se, fizera o pequeno beijar-lhe os coturnos. Fizera-o lamber suas solas de sapato. Pisara na face do garoto, espremendo-lhe os miolos no solo fedido. Satisfizera-se com sua submissão. Avançou pelos cabelos alongados do escravo, obrigando-lhe a retorcer-se e posicionar-se do modo que lhe agradaria. Fizera o pequeno derramar lágrimas de indignação, embora estivesse excitado com a farda impecável que lhe caíra como luva. O soldado urrava pela nuca do rapaz, metia seu corpo fundo ao deste, incendiando seu corpo e acertando-lhe os órgãos internos em cheio. Bradavam juntos feito cavalheiros em pleno duelo. Urravam juntos trazendo as moléstias do mundo obscuro. O homem denominado o cavalheiro do apocalipse lhe deixara falecido de amor: exasperado de sadismo.

27.1.10

O Desconhecido

Trajado numa obsessão patalógica, ele rendia-se aos anseios de sua alma sedenta por um corpo temerário à própria sexualidade. Ele espionava diariamente os passos ágeis daquela face cujos traços conotavam uma indefesa criança. Excitava-se com a ideia. Aquela fisionomia transparecia erotismo, além de toda sua suavidade natural. Lábios desenhados numa pornografia irresistível, olhos tingidos num quase esporro artificial. Sua coloração esmeralda destacada com os borrões vermelhos mistos em negro. Roupas negras e rebeldes, tão surradas quanto suas solas de sapato. Era a vítima perfeita. Jazia a presa sob seus encantos. Não hesitou em copiar os passos do outro, até encurrala-lo num beco qualquer. A navalha inibia o jovem, e os olhos cobiçosos do moreno o analisavam em minucia. Aquele cheiro adocicado entranhava nas narinas, aguçando ainda mais sua libido. Naquele momento, obteve poder para que ordenasse o outro. Os olhos rabiscados tornaram-se analíticos, os lábios em seu traço despudorado vergavam-se nos sorrisos mais gentis, mesmo que suas pupilas dilatadas de temor pudessem o contradizer. Ele queria tanto quanto seu desconhecido moreno de olhos penetrantes. Depois de joguinhos sedutores, estavam sobrepostos por um colchão luxuoso num Motel próximo à esquina da abordagem. O moreno lambuzava-se com o corpo definido que corcoveava por baixo de si. Sentia-se enrijar. Não controlava-se com a submissão e ferocidade daquele que agora oferecia-lhe os punhos para que fossem torturados pelas correias de couro. Estava impotente frente ao seu domador. Indecência invejável. A nudez fez-se a beleza de ambos, e os corpos encaixavam-se emudecidos pelos murmúrios secretos de suas vistas embebidas. As pernas torneadas suspensas pelo ar, auxiliadas por correntes embutidas pelo teto. Promiscuidade fantástica. Aquele anelzinho clamava pela língua levemente áspera do homem, e assim lhe fora concedido. Tão quente e confortável que não mais definia-lhe como áspera, porém havera de ser substituida por uma maciez monstruosa. Compelia-se e berrava obscenidades. Desejava o corpo do moreno preso ao seu. Enquanto seus devaneios alcançavam um estágio de erupção vulcânica, sentiu suas veias dilatarem dando espaço para aquela grossura que respingava-se num líquido relaxante e quase imperceptível. Uma dureza grotesca, uma quentura e umidade deliciosas. Queria acavalar-se por aquela solidez, embora ainda estivesse anestesiado pelo sofrimento agudo que estendia-se por suas virilhas e extensões. Nada excedia tamanho prazer. Absolutamente nada silenciaria suas urrantes súplicas. Pressentira o prazer pela submissão. Pressentira o prelúdio do desconhecido: do mascarado invisível que rondava seus pesadelos. Apaixonara-se pelo psicopata diurno; pelo fetichista noturno.

15.1.10

O Pianista

Era um pianista fabuloso, compunha os arranjos mais diabólicos e eróticos aos ouvidos das moças que residiam na França. Aquelas mãos calejadas de juntas grossas eram quistas pelas jovens que esbanjavam virginalidade naquela época repressora. Seu par de olhos verde-oliva enfeitiçavam quaisquer que fossem as donzelas que lhes apresentasse. Olhos vagos, friamente misteriosos. Ali jazia um poço de pornografia, algo desconhecido nos tempos aos quais encontravam-se. Lábios finos e empalidecidos numa quase tonalidade fúnebre. Cabelos negros feito a plumagem dum corvo açoito, esvoaçantes e desgrenhados costumeiramente. Ele parecia caçar sua presa enquanto seus dedos trabalhavam pelas teclas frias do imenso e caprichoso piano. Ele tinha o fascínio de um jovem aprendiz, tal que lhe cercava com os olhos de modo penetrante. Sentia seus pulmões petrificarem em cada troca de olhar. Que sinfonia seria aquela tão estarrecedoramente hipnótica? O homem era um ícone do pecado. Sedutor e arrojado. Quanto atrevimento naqueles dedos tão ávidos que cegamente desencadeavam a melodia que impregnava nos poros do jovem ouvinte. Sentia-se excitado com a indulgência de tal mestre. Negou sua sexualidade. Vendou seus anseios profanos. Rendeu-se ao homem que lhe seduzia pelos tímpanos. Feroz audácia, mordaz instinto. Deixou-se por acompanhar os passos solenes do músico até que as cortinas em seu asqueroso perfume de gardênia pudessem resguardar o prazer de todos os olhos críticos. Detrás do manto bordo não mais diferia-se a classe, buscavam o mesmo impacto. Amantes da madrugada. O jovem gloriava-se ao exibir suas belas formas agora desnudas, tão vistosas que ensopavam os beiços deleitosos do mestre. Insinou-se e ofereceu-lhe o corpo como uma oferenda. Ambos copulavam mentalmente a grandiosa descoberta. As mãos ásperas que tinham uma intimidade invejável com as teclas rústicas, agora dedilhavam pelo corpo de pêlos claros. Desejava tortura. Submissão. O jovem corpo tinha-se debruçado pelo impecável e lustroso piano, enquanto o pianista lhe surrava as polpas virgens com um relho desgastado. Balbuciava com os urros desgostosos de seu próximo. Tornou-se escravo nas mãos elegantes. Sentia a fervura emanar por todo corpo. Queria enlouquecer naquelas mãos falecidas na perversão. Brutal. Severo. Apaixonante. Aquele smoking parecia perfurar-lhe as artérias, queria ver-se livre do traje que encobria tamanha virilidade. Teve-se livre pelas mãos gentis de seu parceiro. Suas veias inflamavam, seu corpo bradava por êxtase. Atracaram-se pelos corpos. Dançaram furtivamente. Inundavam-se de suor. Melavam-se pelos dedos em busca de um ângulo certeiro rumo à agonia. O jovem sibiliava o quão roliço e molhado o pianista era, censurava-lhe pela rispidez, embora gargalhando durante seus atos pecaminosos. Tinha-se entorpecido. Seus corpos eram máquinas corruptas e insaciáveis. Os dedos pequenos do jovem chiavam pela superfície envernizada tatuando suas impressões digitais de modo selvagem. Insultaram seu fiel Deus. Demoliram seu pragmatismo, assim pernoitando enredados num alvoroço melódico.

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